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16 Jul 2016 - 10:22

“Cristo veio salvar almas, mas não vejo almas andando pelas ruas, vejo pessoas”

Relembre a entrevista de Dom Pedro Casaldáliga ao Agência da Noticia

Agência da Notícia com redação

Agência da Notícia

Relembre a entrevista de Dom Pedro Casaldáliga ao Agência da Noticia (Crédito: Agência da Notícia)

Relembre a entrevista de Dom Pedro Casaldáliga ao Agência da Noticia

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Queria começar este texto perguntando o que faz um homem ser um herói, mas ao pesquisar mais a fundo o conteúdo desta entrevista percebi que se assim fizesse estaria cometendo um grande equivoco, pois ser um herói é bem diferente de ser um santo.

E talvez esta seja a melhor definição de Dom Pedro Casaldáliga, bispo da prelazia de São Félix do Araguaia que enfrentou a ditadura e os poderosos do latifúndio para defender aquilo que acreditava, construiu uma imagem ao longo do tempo, que ele mesmo afirma ser impossível negar, mas que também não pode se aproveitar dela.

Deus não chama ninguém a ser herói, chama alguns para ser santo. E estes apesar de fazerem muito, e muito mais que os heróis, acham que poderiam ter feito mais, pois não fazem com sua força própria, fazem com a graça.

Veja trechos da entrevista de Dom Pedro Casaldáliga ao jornal Agência da Notícia do dia 28 de fevereiro. Nela ele fez declarações polêmicas em relação à política, ao agronegócio e a igreja Católica.

Ao lutar contra o latifúndio, automaticamente o senhor teve de enfrentar pessoas poderosas na região, em uma época onde a lei do mais forte prevalecia, quais foram os momentos mais críticos que o senhor enfrentou?


- Vivíamos sobre constantes ameaças, era uma situação tensa, não podia estar em cima do muro, ou defendia o latifúndio ou os trabalhadores e os índios. As forças armadas do governo agiam estritamente na área da prelazia, era uma operação de controle. Eu fui ordenado Bispo em 1971 na beira do Rio Araguaia, só não cortaram meu pescoço ou me devolveram à Espanha, porque eu era Bispo.

O senhor foi perseguido por latifundiários, sofreu oposição dentro da própria Igreja Católica, o que o motivava a continuar lutando pelos mais fracos?

- Um jornalista me perguntou uma vez em Porto Alegre do Norte se eu sentia culpa pela morte do padre João Bosco, eu respondi a ele que o culpado era Cristo, por Ele que o padre João Bosco estava aqui. Eu estou aqui pelo evangelho, mas para mim as questões secundárias, não são secundárias, pois Cristo veio para salvar almas, mas não vejo almas andando pelas ruas, vejo pessoas.

Do que o senhor sente saudade?

- De Deus, tenho vontade de estar cheio de Cristo. Saudades de muitas coisas, da família, de lugares por onde andei. Saudades de coisas especificas como um prato servido na Catalunha, um pão com tomate, azeite de oliveira e um pedaço de pernil, que só é encontrado lá, faz tempo que estou de regime, sem sal, sem frituras e sem gorduras, como diziam uma mulher sem graça. Gosto muito de cinema, da pra assistir alguns filmes de vez em quando aqui em casa, isso facilita um pouco. Tenho saudades dos amigos, dos perigos, mas não sou um saudosista romântico.

O senhor tem idéia do que Dom Pedro Casaldáliga significa para o Mato Grosso, e isso lhe deixa apreensivo?

- Eu procuro insistir sempre com a equipe pastoral, que por ser Bispo, por meu temperamento, por escrever, por ser poeta, por ter feito algumas viagens e ações fui criando uma imagem que não tenho o direito de negar, mas também não posso aproveitar.

O senhor acredita que é uma pessoa radical?

- O evangelho é radical, vejo minha missão aqui como uma questão de fé. A evangelização não é uma questão apenas de alma, não vejo almas caminhando pela rua, vejo pessoas. E são as pessoas minha maior preocupação.

O senhor se negaria a abençoar um grande fazendeiro, ou rezaria um missa em uma grande propriedade rural?

- Hoje já sou um Bispo aposentado, mas para fazer isso é preciso cumprir as normas da igreja. A questão não é se a pessoa é rica ou pobre, mas sim se é uma pessoa de bem ou não, explorador ou não. Agora como vou abençoar uma pessoa que explora e persegue pessoas, antigamente alguns peões se vendiam aos patrões e perseguiam seus colegas de trabalho, como abençoar uma pessoa assim? Uma vez enterramos um peão sem caixão e nome no cemitério na beira do Araguaia, e falei nessa missa que “a vida deste peão não vale menos que a minha”, mas ele estava sendo enterrado sem nenhum registro e sem a família nunca saber o que aconteceu com ele. Isto é correto?

O que o senhor pensa quando a imprensa divulga os casos de abuso sexual cometido por padres?

- Esse problema é secular, só que acontecia dentro das próprias famílias, entre pai e filhos, irmãos, primos e isso ficava dentro da própria família. Agora a coisa estourou, primeiro porque temos mais liberdade de comunicação, segundo porque alguns espertos principalmente nos EUA e na Irlanda descobriram uma fonte para abrir processos e terceiro porque a igreja precisa reestudar novamente o problema do celibato. O vaticano disse a pouco que o celibato não é pra discutir, mas é sim, não que o celibato seja a causa principal, mas o problema sexo precisa ser revisto. Na bíblia tem três tipos de castrados, pela natureza, pelo homem e por Deus, aqueles que renunciam ao matrimonio para dedicar sua vida a obra de Deus, existe essa vocação e quem ha têm, precisa assumir. Agora falei uma vez para um grupo de seminaristas que a renúncia ao sexo não acontece uma vez apenas, mas é uma luta diária que nos acompanha a vida toda. É uma renúncia diária, é preciso rever o celibato com mais realismo.

Olhando para sua história no Araguaia o senhor tem o sentimento de que cumpriu sua missão?

- Não! Apenas fiz alguma coisa, mas poderia ter feito muito mais. Não me preocupo com isso por que Deus é amor, não seremos julgados, seremos abraçados. Jesus não disse “Juiz nosso que estás no Céu, mas Pai nosso que estás no Céu”.

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