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1 Abr 2019 - 08:55

“Exposição de intimidade na internet pode afetar a saúde mental”

Psicólogo: deboche com envolvidos nesse tipo de situação pode desencadear depressão

Mídia News

Reprodução

O psicólogo cognitivo comportamental Douglas Amorim: alerta para os riscos da exposição na web (Crédito: Reprodução)

O psicólogo cognitivo comportamental Douglas Amorim: alerta para os riscos da exposição na web

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Ter a intimidade exposta nas redes sociais e, de uma hora para a outra, se ver como alvo de críticas e piadas pode trazer consequências muito graves para a saúde mental dos envolvidos.

 

Nesta semana, um vídeo de sexo viralizou nas redes sociais e colocou o município de Rondonópolis (a 220 km de Cuiabá) no segundo lugar dos assuntos mais comentados do Twitter.

 

No vídeo, cinco jovens aparecem em um motel. Identificados, alguns se pronunciaram e negaram que fossem realmente as pessoas que apareciam nas imagens, alegando inclusive que estavam sofrendo ataques. Um deles, chegou a dizer ao MidiaNews que o caso - que tornou-se conhecido como o "surubão de Rondonópolis" - teria "acabado com a sua vida”.

 

Para o psicólogo cognitivo comportamental Douglas Amorim, episódios como esse - ainda que para alguns seja uma necessidade de autoafirmação -, pode posteriormente resultar em quadros de depressão e, inclusive, pensamentos suicidas.

 

“Infelizmente, essas pessoas terão que lidar com isso durante algum tempo, porque vivemos em uma sociedade machista, moralista, e isso acaba tendo que exigir mais para algo que é o nosso comum”, afirmou.

Para o profissional, tudo que é feito entre quatro paredes, de maneira consensual, seja com quantas pessoas for, não deveria ser considerado como algo “de outro mundo”.

 

“O que acaba acontecendo com as pessoas que passam por isso, é que elas sentem que o mundo está contra elas, tem a sensação de que todos estão lhes julgando mal, rindo da exposição e acabam se esquecendo que todos transam, todas as pessoas fazem essas coisas, e não importam com quem elas se deitam. Importa que elas façam isso de modo consentido entre os participantes”, afirmou.

 

“Tudo isso pode desencadear depressão e pensamentos suicidas. A pessoa pode começar a considerar que o único jeito de resolver isso é tirando a própria vida. Ela pode entrar numa depressão forte, pode achar que o mundo todo está contra ela, que ela está errada, que fez algo que não deveria ter feito. Ela fica com vergonha diante dos pais, das pessoas ao seu redor”, avaliou o profissional.

 

Douglas afirma que as pessoas que têm a vida íntima exposta precisam buscar ajuda profissional, seja de um psicólogo ou terapeuta, mesmo que seja para "desencargo de consciência", pois, segundo ele, um episódio pode mudar drasticamente a vida da pessoa.

 

“A primeira coisa [a se fazer] é procurar ajuda profissional, até conseguirem lidar com isso dentro da normalidade. É claro que o tempo é um grande remédio, ele vai auxiliar, mas tenho certeza que se não tratarem desde já, isso pode mudar a forma como eles se olham e a forma como olham a própria vida. E isso pode mudar muitas vezes as próprias escolhas. Eles precisam procurar um profissional, tirar do campo do absurdo e colocar no campo da normalidade, porque o que eles fizeram não tem nada de anormal, independente de como tenha acontecido”, afirmou.

 

 “Eu acho que quanto mais falarmos sobre isso, a gente cria aspectos para as pessoas não se inibirem. Acho que esse tipo de discussão faz com que nós tenhamos esperança de que as coisas possam melhorar. E quanto mais falarmos de que isso faz mal para as pessoas, acho que a gente consegue ligar com isso no futuro”, avaliou.

 

Riscos da exposição na internet

 

Amorim afirma que o fato do vídeo ter vazado por uma pessoa, seja do círculo de amigos, ou não, revela mais ainda como os jovens estão dependentes das redes sociais.

 

Segundo ele, a necessidade de expor a vida nas redes sociais, querendo curtidas e comentários positivos, faz com que esse tipo de situação aumente cada vez mais.

“Quando a gente está crescendo, tem um determinado momento que a gente não gosta da nossa imagem, mesmo que a outra pessoa nos reconheça como a imagem de alguém bonito. Mas a partir do momento que a gente começa a criar mecanismos de autoestima, de gostar de si mesmo, de cuidar-se, esse quadro vai modificando, e a internet ajuda muito as pessoas nessa questão, porque elas aprendem a gostar de si mesmas através da imagem que postam”, disse.

 

Segundo o profissional, algumas pessoas se preocupam tanto com o que os outros vão pensar, que cuidam até da quantidade de conteúdo que posta.

 

Porém, o grande risco para esse tipo de pessoa é atrelar o emocional com o número de "curtidas" que recebe numa foto, por exemplo.

 

“O emocional realmente é a manifestação do outro, e isso acaba deixando as pessoas um pouco ‘escravas’ dessa funcionalidade da internet, de postar foto e aguardar. Elas passam o dia todo naquela expectativa, naquela ansiedade, para saber como será repercutido com seus amigos na internet”, explicou.

 

Conforme o psicólogo, quando a intimidade de alguém é exposta de maneira repentina, sem a sua autorização, acaba fazendo com que essa mesma pessoa - que antes se mostrava tão autoconfiante nas redes sociais - se torne uma pessoa extremamente vulnerável.

 

“Atinge você naquilo que você tem mais de privado, que é o teu sexo, aquilo que você faz entre quatro paredes, com as pessoas que você elege para fazer isso. Cada pessoa tem suas preferências, e nem sempre essas preferências são convencionais. Cada um tem a sua fantasia e, quando essa exposição ocorre, acham muito engraçado ver o outro ali exposto dentro da fantasia dele”, criticou.

 

Sociedade machista

 

O psicólogo acredita que tais situações também acontecem muito ainda porque a sociedade é "machista e moralista", e querem que as pessoas sigam padrões impostos a eles.

 “Se o surubão de Rondonópolis tivesse sido divulgado com o envolvimento de mulheres, essa notícia seria enxergada de outra forma dentro dos noticiários. A sociedade os enxergaria de outra forma. Então, dependendo do gênero, a exposição do sexo é vista com outros olhos. O homem vê o sexo como um troféu. Não é a toa que ele se gaba na mesa do bar para os amigos sobre quantas mulheres ele pegou”, afirmou.

 

“E isso acontece justamente por vivermos numa sociedade que é muito machista. A mulher é vista como um objeto desvalorizado, principalmente quando ela se expõe, quando ela decide sua sexualidade. Então, acredito que nós estamos numa sociedade cruel e machista, que a todo tempo procura vingança. O escárnio acaba sendo algo como uma sedução, de pegar uma pessoa e colocar num palco para ser debochado, para poder rir”, disse.

 

O profissional ainda falou a respeito do envolvimento da política, como no caso de Rondonópolis, em que os protagonistas foram colocados como simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e defensores de valores ultraconservadores - e até mesmo homofóbicos.

 

“O que agrava nesse caso, ainda é a polarização política que nós estamos a alguns anos vivendo nesse país. Essa coisa de esquerda e direita, onde justamente entra esse escárnio", ressaltou.

 

"Porque não foram apenas pessoas envolvidas num sexo não hétero normativo, são pessoas que condenam através de uma figura política atos como esse, que defendem isso, que de alguma forma foi considerada hipócrita. Valores que eles estão provando que não servem nesse sentido, então a internet toda vem com uma espécie de vingança. E são essas pessoas - que defendem a liberdade, que defendem o respeito ao próximo, a liberdade sexual -  que, quando isso remete a alguém que defende um ponto político, usam como [motivo de] escárnio”, avaliou.

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