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Quarta-feira, 19 de agosto de 2026
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Artigos Stéphano Benevides do Carmo

Carbono Não É Promessa. Também Não É Milagre.

O que o produtor rural realmente precisa saber sobre o mercado que já movimenta bilhões no mundo

Foto: Assessoria

Poucos temas despertaram tanto interesse no agronegócio brasileiro nos últimos anos quanto o mercado de carbono. Em um curto espaço de tempo, o assunto passou a ocupar espaço em congressos, feiras, reuniões de negócios e nas principais publicações especializadas. Para alguns, representa uma nova fronteira de riqueza para o produtor rural. Para outros, continua sendo apenas uma promessa cercada de incertezas. A verdade, como quase sempre acontece, está entre esses dois extremos.

O mercado de carbono existe. Está em expansão, movimenta bilhões de dólares em todo o mundo e influencia decisões estratégicas de governos, bancos, fundos de investimento, multinacionais e grandes empresas do agronegócio. Ao mesmo tempo, ainda convive com regulamentações em construção, metodologias complexas e um excesso de expectativas que nem sempre correspondem à realidade encontrada dentro das propriedades rurais brasileiras.

Por isso, antes de perguntar quanto vale um crédito de carbono, talvez seja mais importante responder outra questão: a propriedade rural está realmente preparada para participar desse mercado? Essa é, na minha avaliação, a pergunta que deveria orientar o debate.

Quem ainda acredita que o mercado de carbono pertence apenas ao futuro talvez desconheça o que já acontece na economia global.

Em 2024, a Microsoft anunciou a aquisição de oito milhões de créditos de carbono provenientes de projetos florestais desenvolvidos pelo BTG Pactual Timberland Investment Group (TIG), em uma das maiores operações privadas já divulgadas nesse segmento.

No setor financeiro, o Itaú Unibanco tornou-se um dos participantes da Carbonplace, plataforma internacional criada para conectar compradores e vendedores de créditos de carbono, ao lado de algumas das maiores instituições financeiras do mundo.

No agronegócio brasileiro, empresas como a AMAGGI investem em projetos ligados à agricultura regenerativa e ao carbono no solo, enquanto grupos como a JBS desenvolvem iniciativas para medir e reduzir as emissões de suas cadeias produtivas, antecipando exigências que já fazem parte do comércio internacional.

Esses exemplos demonstram que as grandes corporações deixaram de discutir se o mercado de carbono vai existir. Elas já estão investindo para ocupar posições estratégicas em uma economia que valoriza ativos ambientais, rastreabilidade e redução de emissões.

No Brasil, a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/2024, representa um dos principais marcos da política climática nacional. Entretanto, é importante compreender que o mercado regulado brasileiro ainda está em fase de implementação.

O Governo Federal trabalha na regulamentação técnica do sistema, definindo metodologias, critérios de monitoramento, registros oficiais e mecanismos de governança que deverão oferecer segurança jurídica às futuras negociações.

Na prática, convivemos hoje com duas realidades distintas: o mercado voluntário, que já movimenta recursos entre empresas interessadas em compensar emissões ou cumprir compromissos ambientais, e o mercado regulado, que ainda está sendo estruturado e deverá entrar em funcionamento de forma gradual. Compreender essa diferença é fundamental para evitar expectativas irreais.

Maior produtor nacional de grãos e um dos estados com maior patrimônio ambiental do país, Mato Grosso também começa a ocupar posição estratégica nessa nova economia. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA-MT) passou a tratar o mercado de carbono como um instrumento de desenvolvimento econômico associado à conservação ambiental.

A estruturação de iniciativas relacionadas ao REDD+ jurisdicional, a busca por investimentos climáticos e o fortalecimento do monitoramento ambiental demonstram que o Estado procura transformar seus ativos naturais em vantagem competitiva. Essa mudança representa uma evolução importante da política ambiental.

Durante décadas, a atuação do poder público esteve concentrada no licenciamento, na fiscalização e no controle ambiental. Essas funções continuam essenciais, mas passam a conviver com instrumentos econômicos capazes de reconhecer e valorizar quem produz de forma sustentável.

Se Mato Grosso procura criar um ambiente favorável aos investimentos, o IBAMA reforça um princípio igualmente importante: a integridade ambiental. O Instituto deixa claro que um crédito de carbono somente possui valor quando representa uma redução ou remoção de emissões efetivamente comprovada.

Isso significa atender critérios rigorosos de adicionalidade, permanência, monitoramento, mensuração, auditoria independente e rastreabilidade. Em outras palavras, o mercado não remunera simplesmente a existência de uma floresta. Ele remunera resultados ambientais comprovados.

Essa distinção protege tanto os compradores quanto os produtores e fortalece a credibilidade do mercado brasileiro.

Talvez a pergunta mais frequente seja: “Tenho uma propriedade regularizada e uma Reserva Legal preservada. Posso vender créditos de carbono?” Na maioria das situações, a resposta é não automaticamente.

A existência de vegetação nativa, por si só, não gera créditos comercializáveis. É necessário demonstrar, por meio de metodologias reconhecidas internacionalmente, que aquela propriedade produz benefícios ambientais adicionais, permanentes e verificáveis.

Essa talvez seja a maior diferença entre patrimônio ambiental e ativo ambiental. Nem toda floresta preservada gera créditos de carbono. Mas toda propriedade bem administrada amplia suas possibilidades de participar desse mercado.

Quando analisamos as posições das instituições públicas e das principais entidades representativas do setor produtivo, encontramos uma convergência bastante interessante: nenhuma delas apresenta o mercado de carbono como uma solução rápida para aumentar a renda do produtor rural.

Ao contrário. Todas defendem que a geração de valor ambiental é consequência de uma propriedade tecnicamente eficiente, ambientalmente regularizada e bem administrada.

A Aprosoja Mato Grosso orienta seus associados, por meio do Programa Soja Legal, a manterem o Cadastro Ambiental Rural atualizado, organizarem a documentação da propriedade e fortalecerem a rastreabilidade e a conformidade ambiental.

O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA) contribui produzindo estudos econômicos que permitem avaliar custos, produtividade, competitividade e tendências de mercado, reforçando que decisões relacionadas ao carbono devem ser tomadas com base em dados e análise econômica.

Já o Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt) demonstra, por meio de pesquisas científicas, que práticas amplamente adotadas na cotonicultura favorecem o aumento da matéria orgânica do solo, reduzem o consumo de combustível e ampliam o potencial de sequestro de carbono.

A mensagem do Instituto é clara: antes de discutir créditos de carbono, é preciso produzir melhor.

Essa visão também é compartilhada pelo Sistema Famato, que concentra seus esforços na assistência técnica, na capacitação e na gestão das propriedades rurais, entendendo que sustentabilidade, produtividade e competitividade caminham juntas.

Quando reunimos todas essas posições, a conclusão é evidente: o crédito de carbono não representa uma nova atividade agrícola. Ele é consequência de uma propriedade que reúne governança, regularidade ambiental, tecnologia, rastreabilidade e capacidade de demonstrar resultados.

Talvez o debate mais sensível sobre o mercado de carbono não esteja nas metodologias de certificação nem na tecnologia utilizada para medir emissões. A questão central é outra: quem deve remunerar o produtor rural pelos serviços ambientais que sua propriedade presta à sociedade?

Milhões de hectares permanecem preservados em propriedades privadas brasileiras, seja por obrigação legal, seja por decisão de seus proprietários. Essas áreas contribuem para a conservação da biodiversidade, a proteção dos recursos hídricos, a estabilidade do clima e o armazenamento de carbono.

É natural, portanto, que muitos produtores questionem se esses benefícios ambientais também não deveriam ser reconhecidos economicamente. Essa discussão está diretamente relacionada ao conceito de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).

Entretanto, é fundamental separar conceitos. Receber por serviços ambientais não é a mesma coisa que gerar créditos de carbono.

Os créditos exigem metodologias específicas, comprovação de adicionalidade, monitoramento permanente e certificações reconhecidas. Já os programas de PSA podem remunerar benefícios ambientais mais amplos.

Essa diferença precisa ser compreendida para evitar frustrações.

Enquanto o mercado amadurece, cresce também o número de empresas oferecendo contratos de longo prazo aos produtores rurais. Alguns preveem cessão dos direitos sobre créditos por décadas.

Antes de qualquer assinatura, é indispensável entender exatamente o que está sendo negociado: propriedade dos créditos, custos, compradores e obrigações.

Ao longo de mais de três décadas acompanhando a gestão ambiental brasileira, observa-se uma mudança profunda: produzir conservando passa a gerar valor econômico.

A propriedade rural deixa de ser avaliada apenas pela produtividade e passa a incluir governança, rastreabilidade e serviços ambientais.

Nesse contexto, o crédito de carbono não é um fim em si mesmo. Ele é apenas um instrumento dessa nova economia.

O mercado de carbono não é uma promessa. Mas também não é um milagre.

Grandes empresas já atuam, bancos estruturam plataformas e investidores direcionam recursos. Ao mesmo tempo, cresce a orientação comum: antes de vender carbono, é preciso produzir bem e com responsabilidade.

Talvez essa seja a principal lição: mais do que discutir o preço do carbono, é preciso decidir como valorizar quem produz e conserva.

O futuro desse mercado dependerá da confiança entre produtores, investidores, governos e consumidores.

Porque, no fim, o ativo mais valioso de uma propriedade rural não será apenas sua floresta — será sua credibilidade.

Stéphano Benevides do Carmo

Stéphano Benevides do Carmo
Stéphano Benevides do Carmo atua há mais de três décadas na gestão pública. É Diretor da Classe A Agro e participou de projetos relacionados ao desenvolvimento regional, regularização fundiária, gestão ambiental, infraestrutura e atração de investimentos em Mato Grosso. Atualmente dedica-se à análise estratégica do agronegócio, inteligência territorial e novas oportunidades ligadas à economia ambiental. 
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