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A entrevista hoje é com um dos pioneiros da região do Araguaia, Woldfgang Dankmar Gunther, que conta histórias de um Araguaia que nem todos conhecem

Dankmar Gunther é viúvo, tem 84 anos e registrou a história através de 14 livros de sua autoria.

Agência da Notícia com Redação

06/06/2015 - 09:56 | Atualizada em 06/06/2015 - 10:22

A entrevista hoje é com um dos pioneiros da região do Araguaia, Woldfgang Dankmar Gunther, que conta histórias de um Araguaia que nem todos conhecem

Dankmar Gunther é viúvo, tem 84 anos e registrou a história através de 14 livros de sua autoria.

Foto: Agência da Notícia

O Entrevista da semana relembra uma conversa de nossa equipe com o escritor Wolfgnang Dankmar Gunther, viúvo, 84 anos, que por mais de 15 anos viveu em Porto Alegre do Norte e que foi um dos pioneiros da região, vivendo fatos que entraram para a história do Norte Araguaia.

“Mais que idealismo, precisávamos sobreviver”.

Na história, a guerrilha do Araguaia ficou registrada como um grupo armado ligado ao Partido Comunista Brasileiro que se instalou ao longo das margens do rio Araguaia após o golpe militar de 1964, com o objetivo de iniciar uma revolução socialista motivada pelas experiências vitoriosas de Cuba e da China.

Mas essa não é uma verdade absoluta segundo Wolfgang Dankmar Gunther um viúvo de 84 anos, morador a mais 15 anos de Porto Alegre do Norte e que carrega em sua bagagem a experiência de ter chegado ao Araguaia em 1948 como um bandeirante, o último ainda vivo.

Autor de quatorze livros, que na maioria contam histórias da região, ele começou a conversa afirmando que o núcleo do “partidão”, que arquitetou uma guerra rural, ficava escondido no norte de Goiás, onde hoje fica o estado do Tocantins, e que no Mato Grosso as guerrilhas tiveram comportamentos mais humanitários.

Ele conta que trabalhou por dez anos como diretor da Fundação Brasil Central na Ilha do Bananal, foi oficial de justiça, e mais tarde servidor público em Santa Terezinha, quando começaram a chegar os primeiros guerrilheiros. Alguns se preparando para uma resistência armada, outros apenas tentando garantir a sobrevivência de sua família.

“Naquela época não havia espaço para o diálogo, percebíamos que muitos fugiam com medo da cadeia e da tortura, pois era impossível explicar que não concordavam com a luta armada”, disse o senhor que concluiu seu pensamento lembrando que a maioria eram jovens universitários ou profissionais liberais que nos povoados montavam farmácias, faziam atendimentos médicos e abriam mercearias, de onde tiravam seus sustentos.

Um destes, conhecidos como “Tuca” confidenciou em uma conversa de bar que, o que o fez fugir com a família do sudeste para o Centro Oeste não foi o idealismo, mas uma tentativa de se proteger.

“Lembro ele me contar que fez parte do partido comunista, mas que saiu quando começaram os planos de uma ditadura socialista, mesmo assim a repressão era muito forte e se não fugisse com certeza seria preso e torturado, por isso afirmava que antes do idealismo, fugiu porque precisava sobreviver”, recorda.

Por outro lado ressalta que os mais radicais ficavam na mata, apareciam raras vezes nos povoados para comprarem medicamentos e mantimentos, sempre armados, aproveitavam as visitas para pregarem suas ideologias aos peões de fazenda, que ganhavam o básico para sobreviverem e aderiam rapidamente às ideias de igualdade, o que fez com que muitos fazendeiros se aliassem aos militares nas buscas pelos então fugitivos.

“Fui testemunha de muitos confrontos, emboscadas e mortes. Era uma época difícil, na realidade não sabíamos o que era certo ou errado. Eu não me envolvi, mas acompanhei de perto tudo o que aconteceu e percebi que na grande maioria os guerrilheiros que vieram para a região de São Félix e Santa Terezinha não pensavam em criar uma guerra ou implantar um novo sistema, se preocupavam apenas em ensinar aos mais pobres, os seus direitos”, declara Dankmar.

Ressalta que no Mato Grosso a guerrilha teve um papel mais institucional e até mesmo religioso, o que já era suficiente para incomodar os fazendeiros e garimpeiros que usavam de trabalho escravo em suas propriedades e andavam cercados de pistoleiros espalhando terror pelas comunidades.

“Quando os guerrilheiros se depararam com essa realidade começaram a ensinar as pessoas os seus direitos e isso era inaceitável, para ter uma ideia de como eram as coisas por aqui, eu vi vários trabalhadores morrerem de exaustão nas lavouras e nos garimpos”.

Essa história de jovens entusiasmados e corajosos chegou ao fim com um banho de sangue na metade da década de setenta, mas o que os ditadores demoraram a perceber é que a semente da liberdade, da igualdade e da justiça já estava semeada no coração do povo.


A FÉ ARMADA


No livro Terras Bravias Dankmar Gunther relata que os lideres católicos sofreram grandes perseguições por serem apontados como mentores das Guerrilhas do Araguaia.

Muitos como o bispo de Marabá Don Estevão, Frei Gil, Padre Roberto, irmã Maria, Casaldáliga e Padre Canuto acabaram presos.

“Lembro que os primeiros padres e bispos chegaram no dia 25 de dezembro de 1967 num lugar conhecido como Faveiro em São Félix do Araguaia, o rio estava tão cheio que parecia um oceano, algumas pessoas estavam os esperando e tão logo começaram a se organizar criando a União Pela Liberdade e pelos Direitos do Povo”.

Essa organização foi apontada como uma das lideranças de varias resistências armadas, mas na verdade teria servido de blindagem a muitos revolucionários, tendo em vista que os abusos cometidos por policiais e militares a ribeirinhos eram grandes.

“A luta era desigual, o poder bélico do exercito era infinitamente maior, mas os padres e bispos foram grandes escudos dos guerrilheiros, pois na fronte de batalha seriam exterminados caso esses lideres não tivessem a frente. Mas imaginem o conflito diplomático que aconteceria caso matassem estrangeiros como o bispo Casaldáliga e o padre François Jentel” declarou o escritor.

Lembrando que ambos estiveram presos e Dom Pedro só não morreu quando foi socorrer duas mulheres que eram torturadas pela polícia em Ribeirão Cascalheira, porque foi confundido com o Padre João Bosco, que acabou assassinado em seu lugar.
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