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Agência da Notícia, Terça-feira 22 de Junho de 2021

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24 Mai 2021 - 08:13

"O mais difícil é quando não conseguimos devolver um paciente pra família", desabafa enfermeira

Michael Esquer

Reprodução

 (Crédito: Reprodução)
No fim de um dia de trabalho, pela porta dos fundos, Ivone de Jesus dos Santos, 47 anos, entra, toma banho, em um chuveiro que foi instalado na parte de trás da casa — uma tentativa de proteger a família de possíveis contaminações — veste roupa e revê o marido e o filho. Há mais de um ano, essa tem sido a rotina da enfermeira que atua na linha de frente no combate à pandemia, no box de emergência da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Morada do Ouro, popularmente conhecida como UPA Norte, em Cuiabá.Ivone trabalha na unidade hospitalar há sete anos e, nela, sua experiência como profissional da área da saúde inclui a passagem por vários setores. Entre eles, uma semelhança salta à vista: o atendimento de pacientes com risco grave. Graduada em enfermagem e pós graduada em Urgência e Emergência, com ênfase em Estratégia da Saúde da Família (ESF), os estudos sempre fizeram parte do sonho que a enfermeira teve de cuidar e oferecer apoio aos familiares de pessoas que precisam de atenção médica.

Em 2020, a pandemia, porém, apresentou uma realidade que até então ela, assim como qualquer profissional da saúde, não imaginou atravessar e que, neste ano, tornou-se ainda pior com o recrudescimento da curva de óbitos e casos confirmados no estado e no país. No início de março, o sistema de saúde de Mato Grosso entrou em colapso e desde então, há mais de um mês, o estado conviveu com um sistema colapsado, onde a taxa de ocupação das UTIs não atingiu números menores que 90%.Em nenhum momento eu pensei em me formar e trabalhar com a situação que a gente tá trabalhando hoje. A gente tem outro tipo de pensamento, a gente sabe que na enfermagem a gente enfrenta muitas coisas, mas não o que tá acontecendo agora, nunca imaginei. A mudança é a superlotação, a gente tem que se desdobrar mais, tem que se dedicar mais, nas horas de trabalho também”, contou a enfermeira.

Como trabalha no box de emergência, Ivone tem contato direto com pacientes que correm risco de morte e, atualmente, a maioria deles tem testado positivos para o vírus da Covid-19. Responsável pelo acompanhamento desses pacientes durante o período em que estão internados na UPA, ela verifica exames solicitados por médicos, acompanha a realização desses exames, como por exemplo o de Tomografia Computadorizada (TC), geralmente feito para avaliar o comprometimento dos pulmões. Outra atribuição importante é ainda a regulação na Central de Vagas para aqueles que precisam de uma vaga em UTI.

“Entro no box, junto com a equipe, vejo todos os pacientes que estão ali, no setor do box … e a maioria desses pacientes que tá comigo agora são tudo Covid positivo”, relatou Ivone.

“Tem colegas que não aguentam a rotina”

A chegada da pandemia, transformou a vida de 95% dos profissionais da saúde, segundo a pesquisa “Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19” da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicada em março. Um dos dados do estudo é a exaustão de 50% dos profissionais, que admitiram excesso de trabalho ao longo da crise sanitária.

“A pesquisa retrata a realidade daqueles profissionais que atuam na linha de frente, marcados pela dor, sofrimento e tristeza, com fortes sinais de esgotamento físico e mental. O medo da contaminação e da morte iminente acompanham seu dia a dia”, disse Maria Helena Machado, coordenadora do estudo.

Muito antes da pandemia, porém, Ivone já havia transformado a UPA Norte em sua segunda casa, a sua chegada, serviu para reforçar esse vínculo que, agora, ela mantém mais firme do que já possa ter imaginado manter um dia. Entre um atendimento e outro, ela relembra os motivos que a fizeram escolher essa profissão.“Eu sempre gostei do ato de cuidar… aqui é a minha segunda casa. Eu sempre chego aqui na unidade e eu me sinto bem aqui. Tenho pacientes que falam ‘nossa você tá sempre sorrindo, que estranho’. É difícil, mas você tem que passar uma positividade”, disse.

Positividade esta, que, infelizmente, não consegue ser a solução para os problemas de outros profissionais da saúde — dentre eles, companheiros de trabalho da enfermeira — , que são levados ao limite do esgotamento físico e mental.

“Às vezes a gente tem colegas que não aguentam a rotina e a gente tem que substituí-los … apresentam problemas psicológicos, é muito sensível a esse tipo de problema …eles acabam pedindo afastamento”, contou.Pior momento

Em seus anos de experiência, a enfermeira já teve que, por várias vezes, dar a triste notícia aos familiares sobre o falecimento de um ente querido. Com o sistema de saúde colapsado, associado ao alto registro de óbitos causados pela Covid-19 — que em março teve o seu maior índice no estado desde o começo da pandemia — , dependendo do dia, Ivone tem que desempenhar essa difícil tarefa por até três vezes.

“O mais difícil é quando um paciente desses, a gente não consegue devolver ele pra família e você tem que avisar pra família. No ato de tá ali, junto com a psicóloga e o médico, dando aquela notícia … é o momento mais angustiante que tem pra nós. Porque a gente fez de tudo, a família deu seu ente querido pra nós com vida, então ela quer receber [o ente querido] com vida e, às vezes, quando a gente não consegue, é muito difícil … dar essa notícia ... a gente segura pra não chorar junto com a família, é um momento muito triste”, disse.

Infectada pelo Sars-Cov 2, em abril do ano passado, quando apresentou os primeiros sintomas no trabalho, a enfermeira acreditou que fosse excesso de trabalho e, por isso, inicialmente, não procurou atendimento. O que mudou no dia que, durante um plantão, começou a sentir dor nas costas, ter febre e um colega, médico, decidiu medir a sua saturação. Com resultados alterados, ela foi submetida a uma TC, que confirmou comprometimento de 20% dos pulmões, e no mesmo dia foi afastada. Felizmente, além deste, os demais sintomas que Ivone teve foram moderados.

“Fiquei com muito medo, mas confiante que ia dar tudo certo. Dentro de mim meu psicológico falava ‘Ivone, vai dar tudo certo, não se deixa abater, vai dar tudo certo’. Na minha cabeça eu tinha a positividade que ia dar certo”, relembrou.

Numa tentativa de humanizar o atendimento, desde que foi infectada, a enfermeira fala sobre o diagnóstico e a recuperação que teve para pacientes e seus familiares. Tudo para tentar trazer positividade durante os dias de tratamento, que podem ser decisivos na luta contra o vírus.

“Fica até mais fácil pra eu apoiar a família, falo pra família também que eu já peguei, eles criam mais confiança na gente”, diz.

Falta amor à vida

Fora do trabalho, ao perceber o comportamento de várias pessoas diante da crise sanitária que o estado atravessa, a enfermeira sente tristeza. Enquanto acompanha no trabalho pessoas que, às vezes, não têm uma segunda chance e morrem vítimas da Covid-19, Ivone se frustra ao perceber que, ainda hoje, ainda existem pessoas que teimam em se aglomerar, fazer festas e não usar máscaras.

“Você se sente um pouco até incapaz, você fica triste em ver que algumas pessoas não acreditam e através daquelas pessoas vai aumentar mais [óbitos e casos confirmados], porque se aquelas pessoas não acreditam vai aumentar mais o fluxo da Covid”, contou.

A enfermeira trabalha na escala de 12x36, isto é, acumula um total de 36 horas trabalhadas, divididas em turnos que duram 12 horas cada. Em uma rotina que, sobretudo, durante a pandemia ficou mais pesada devido a superlotação hospitalar, associado a exaustão de vários profissionais da saúde, a enfermeira deixa a mensagem:

“Usem máscara, lavem as mãos sempre, que é importante. Se não tiver acesso a água, passa o álcool, mas sempre, de preferência, lavar a mãos que é mais importante ... Tenham amor à vida enquanto a gente a tem, tenham amor à vida, ao próximo”

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