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20 Dez 2021 - 11:16

Um mar de cabelos brancos

Agência da Notícia com Onofre Ribeiro

Agência da Notícia com Reprodução

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso (Crédito: Agência da Notícia com Reprodução)

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

Na última quinta-feira, 16, participei do lançamento do livro “Adeus ao Vírus”, escrito pelos jornalistas Martha Baptista e Sergio de Oliveira, patrocinado pelo Fundo Emergencial da Saúde Animal em Mato Grosso – FESA-MT. O livro trata da luta pela erradicação da febre aftosa no rebanho bovino de Mato Grosso desde o fim da década de 1970 até hoje. Nesses quase 50 anos a pecuária estadual deu um salto absolutamente histórico e alcançou níveis altíssimos de qualidade, produtividade e eficiência. E entrou no mapa econômico mundial.

Agora vamos ao título deste artigo. Todo esse programa de combate e erradicação da febre aftosa, era um forte impedimento para o mercado internacional da carne bovina produzida no estado. A luta imensa e longa foi desenvolvida por jovens técnicos ao longo desse tempo. Hoje todos eles estão com os cabelos brancos. Técnicos e técnicas. A maioria já estão com 70, 80 anos e até mais. No lançamento do livro, no auditório da Federação da Agricultura, naveguei no mar de lembranças junto com aquelas cabecinhas brancas. A partir de 1976 estive ao lado desse movimento de combate à aftosa. Em alguns estive dentro da luta.

Além de ver tantos amigos desses anos, alguns caminhando devagar, outros  bastante cansados, não pude deixar de refletir como a vida no setor público é ingrata. Aposenta e joga fora gente de extraordinária qualidade que deu a sua vida por causas do bem público. Em todos os setores. Conheci e também viajei muito por aquele Mato Grosso quase sem estradas. E os carros? Velhos jipes, fuscas e caminhonetes antigas com as C-14, C-10 ou F-1000 e Toyota Bandeirante.Conforte? Zero!

Era puro idealismo. Salários muito defasados naquele tempo. Ao contrário de hoje. Ótima remuneração, carros de luxo. Estradas asfaltadas. Hotéis com ar condicionado. Cidades bem estruturadas. Naquele tempo, nada disso existia. A pergunta é: o que motivava aqueles técnicos e por o pé a vida na estrada acreditando nos projetos daquela época? Era puro idealismo mesmo. Muita fome, muita sede na falta de qualquer apoio nas estradas naquele Mato Grosso de 40, 50 anos atrás. Quem já viajou num jipe em estradas sem asfalto, sabe o que é cavalgar num burro brabo.

Quem eram eles? Eram jovens veterinários, engenheiros, economistas, administradores, simples funcionários públicos,  homens e mulheres ousadas, formados nas universidades daquele tempo. Aqui é preciso registrar. As universidades brasileiras formavam técnicos com profundo comprometimento nacionalista. Eram universidades nacionalistas na sua essência. O sonho de então era preparar os técnicos que iriam construir o Brasil do futuro. A crença no futuro era indiscutível para aquelas técnicos. Deram a sua vida pelo projeto em que acreditavam. Como viajar no pantanal de 1970? Sem estradas. Só compromisso nacionalista e a ética da função. E o Nortão? Só lama e poeira nas poucas estradas. O Araguaia era um mundo que novo que se abria. O Sul do estado era mundo de estradas de areia e de garimpos.

Hoje as grandes fazendas. A moderna agropecuária integrada. Mercados internacionais. Pecuária de alta qualidade sanitária e técnica.

Nada disso existiria hoje sem esses esquecidos brasileiros de cabecinha branca que arregaçaram as mangas da camisa e da alma e desbravaram o território e a alma desse estado tão profético em relação ao futuro.

Nenhuma autoridade do governo esteve no lançamento do livro pra conhecer os heróis de ontem e conhecer a sua luta. . Não importa. Eles já lidaram com tanta gente da política que veio, passou e também ficou esquecida no tempo. Confesso que me emocionei muito ao ver o velho amigo Adair. Cabelinhos brancos, bengala e olhos distantes. Nele homenageio todas as cabecinhas brancas que vi naquele dia.

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