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12 Abr 2014 - 14:00

Mulheres fazem ato em Cuiabá para pedir o fim da violência obstetrícia

Ato foi para lembrar cesárea feita contra a vontade de gestante no RS. Manifestantes dizem que em muitos casos, a violência começa no pré-natal.

G1 MT

 Um grupo de mulheres realizou um ato nesta sexta-feira (11), na praça Alencastro, em Cuiabá, para pedir o fim da violência durante a gestação e também no parto. O protesto ocorreu também em outras capitais no país para lembrar o caso de Adelir Carmem Lemos de Góes, que teve que fazer uma cesárea contra a vontade dela, após decisão judicial, no Rio Grande do Sul. O acontecimento foi considerado pelas manifestantes um desrespeito aos direitos das grávidas.
"Ela tinha um risco, mas esse risco não significava que tinha que fazer uma cesárea. Ela estava bem e o bebê também. Estava com 9 cm (de dilatação), quando pra parir são necessários 10 cm. O parto estava evoluindo positivamente, e exame feito no hospital mesmo dizia que ela e o bebê estavam ótimos", disse a enfermeira obstetra Laura Padilha, uma das organizadoras do ato.
A enfermeira e doula Damaris Figueiredo, de 33 anos, que também foi uma das articuladoras do evento na capital, afirma que a violência começa a ocorrer, em muitos casos, ainda no pré-natal. "Cerca de 70% das mulheres desejam ter parto [normal]. Mas, no decorrer da gestação, elas são desestimuladas por falas de profissionais que dizem: 'Ah, a sua bacia é pequena', 'O seu bebê é grande', 'Ah, você não tem o perfil pra parir'", afirmou.
Damaris é mãe de duas crianças - a segunda nasceu de forma natural - e já participou de mais de 30 partos. "Teve uma gestante que atendi que o obstetra fez exame de toque com 36 semanas e disse que ela não tinha uma bacia boa pra parto. Essa mulher me ligou chorando, porque queria parto normal. Para nossa surpresa, ela entrou em trabalho de parto com 41 semanas e, em três horas, ela pariu em casa", contou.
A funcionária pública Damaris Carvalho, de 34 anos, teve o filho Davi há dois meses de forma natural e conta que passou a maior parte da vida sendo a favor da cesárea, por causa de todos os problemas que a mãe dela teve durante um parto normal. "Ela teve indução de parto, foi amarrada, levou um corte enorme na vagina, teve duas costelas quebradas por causa da manobra de Kristeller [onde se pressiona a barriga da mulher para o bebê sair mais rápido], e ficou internada 8 dias no hospital".
Damaris disse que, quando começou a pensar em ter filho, assistiu a um vídeo sobre parto normal no qual um médico disse que o sistema precisa fazer as mulheres se sentirem incapazes de parir. "Aquilo mexeu comigo. E descobri que existiam as falsas indicações de cesáreas, que os médicos mentiam para as mulheres". Depois começou a estudar o assunto, mesmo antes de engravidar, e decidiu pelo parto normal. "Foram 30 horas de trabalho de parto, mas eu consegui". O bebê nasceu com pouco mais de 4 quilos.
"Nós não somos contra a cesárea. Se uma mulher quiser fazer cesárea, tudo bem. E, mesmo se a gestante quiser parto normal e tiver que passar por uma cesárea, ela vai fazer, se isso for para segurança dela e do bebê. O que queremos é que parem de mentir para fazer o parto. O problema é a violência do Estado sobre o corpo", afirmou a funcionária pública.
No final da manifestação, que durou pouco mais de uma hora, foi feita uma vigília em memórias às mulheres vítimas de violência obstetrícia.
Violência
A doula Damaris Figueiredo cita ainda como formas de violência o uso de falsos diagnósticos para justificar a cesárea, o impedimento da gestante de ter um acompanhante na hora do parto e procedimentos feitos muitas vezes sem a autorização da paciente, como a episiotomia.
"Tem estudos há 30 anos que dizem que não deve ser realizada. E a OMS [Organização Mundial da Saúde], que pondera muito bem essa questão, diz que menos de 10% das mulheres podem precisar de uma. Mas a gente sabe que, aqui em Cuiabá, [a mulher] entra para ter o parto e, mesmo se o bebê estiver com a cabeça quase pra fora, ainda assim o médico corta a mãe. E está comprovado que não ajuda”, declarou.
A manobra de Kristeller também foi lembrada pela enfermeira. "Isso pressiona o útero, pode forçar o períneo. É uma situação muito grave, já vi mulheres com a costela quebrada em decorrência desse procedimento. Períneos dilacerados também", exemplificou.

 
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