Agência da Notícia

Mato Grosso

Agência da Notícia, Sexta-feira 17 de Setembro de 2021

1 7
:
2 5
:
5 4

Últimas Noticias

Enquete

Como você pretende investir o seu dinheiro nos próximos anos?

Notícias / Artigos e Opinão

18 Dez 2014 - 10:55

Pacotes de Natal

Da publicidade, pouca coisa me irrita mais e me desilude da própria humanidade do que o anúncio da venda de ensino

Agência da Notícia com ROBERTO BOAVENTURA

 Nesta época do ano, a palavra mais usada por quase todos os humanos é “presente”. É difícil alguém – em geral, muito chato – passar por você e não perguntar: “e aí, já comprou os presentinhos de natal?”.

Logo, o ato de presentear, iniciado pelos reis magos, conforme reza a Bíblia Sagrada, talvez seja um dos mais recorrentes.

Embora eu não mais cultive esse hábito híbrido de falso cristianismo com o capitalismo bem real na cara e no bolso de todos, confesso que não estou isento de receber, pelo menos, anúncios publicitários dos mais variados produtos. Recebo-os pela mídia convencional, pela internet, por correspondências e até por pacotes deixados anonimamente em minha caixa postal.

Pois bem. Dias atrás, recebi um desses pacotes. Nele, um livreto e quatro folhetos.

O livreto, com um ator global na capa, pretende arrastar-me para uma loja que vende sapatos. "Nesta época do ano, a palavra mais usada por quase todos os humanos é “presente”. É difícil alguém – em geral, muito chato – passar por você e não perguntar: 'E aí, já comprou os presentinhos de natal?'. "

Dos folhetos, um se refere a esse tipo de loja nas quais de tudo um pouco há: kit de ferramentas, ventiladores, abridores de garrafa de vinho, lanterna...

O outro folheto anuncia uma das marcas francesas de carro. O terceiro, um colégio: “do berçário ao 9º ano”. Por fim, o quarto folheto! Ah, mas para falar dele, abrirei novo parágrafo. Ele merece destaque.

Aberto o novo parágrafo, agora posso falar o que pretende me vender o quarto folheto, mas, antes, pergunto: alguém é capaz de supor o que seja?

Acertou quem pensou em um anúncio que se propõe a apresentar o vestibular de “ensino a distância” de uma faculdade particular.

Da publicidade, do qual sou um pesquisador, pouca coisa me irrita mais e me desilude da própria humanidade do que o anúncio da venda de ensino, ainda mais quando a modalidade é a distância.

Mas vamos lá. Na capa do folheto, uma pergunta: “qual é o seu sonho?”

Em formato de respostas alternativas, três são marcadas: a) “ter um diploma; b) garantir o futuro da família; c) fazer amigos para a vida toda”.

Em termos de eficácia publicitária, tudo certo. Em termos de decência acadêmica, tudo errado.

Na verdade, os três registros acima são decorrências naturais de quem estuda de verdade. Todavia, antes ou acima de quaisquer um deles, deveria haver, pelo menos, alguma nota incentivando o ato de estudar em si. Não há. Essa ausência significa o próprio vazio acadêmico de tais cursos. Elementar.

Para mim, que sou um mesmo romântico deslocado do tempo e espaço, a escolha de um curso superior, antes de tudo, deve apontar, com clareza, para um dos momentos mais importantes dedicados a um aprendizado profundo de alguma área do conhecimento humano, com a qual estabeleço afinidades.

A partir da obtenção sólida desse conhecimento, obtém-se um diploma. Por tabela, consegue-se a possibilidade de ascensão social (sua e de sua família) e, mais por tabela ainda, angaria-se algum amigo verdadeiro. Ah, não vale contar “amigo” do facebook!

Não contente, a mesma empresa do setor educacional ainda oferece vários cursos de “pós-graduação” em duas áreas. E tudo “reconhecido” pelo MEC!

Por “pós-graduação”, leia-se: aqueles cursinhos sem nível algum, cujo trabalho de conclusão é, em geral, comprado. Muitos deles, adquiridos naquela empresa de Minas Gerais recém-descoberta pela Polícia Federal.

E assim caminhamos para o fundo do poço. Enquanto a educação, com o aval do MEC, for tratada como mais um item de publicidade, o Brasil pode esquecer de futuro promissor. Será em breve um país repleto de graduados e diplomados semianalfabetos por todos os lados.

É disso que precisamos?

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é doutor em Jornalismo pelaUSP; prof. d Literatura/UFMT

Comentários no Facebook

Comentários no Site

0 comentários

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Agência da Notícia. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site Agência da Notícia poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.
Comentários com mais de 1300 caracteres serão cortados no limite.

 
Sitevip Internet